A televisão entendeu a internet e agora quer transformar audiência em relevância.
Com apps próprios, vídeos curtos, creators na programação e dados guiando pautas, emissoras brasileiras tentam adaptar linguagem, distribuição e produto a um consumo cada vez mais fragmentado.
A audiência se espalhou.
A televisão segue forte, mas já não organiza sozinha a atenção do público. O consumo de vídeo hoje acontece em múltiplas telas, ritmos e contextos: TV aberta, streaming, YouTube, TikTok, Reels, cortes, lives e plataformas sob demanda.
Segundo o Inside Video 2025, da Kantar Ibope Media, o vídeo alcançou 99,54% da população brasileira em 2024, o que mostra que o formato ficou ainda mais central na rotina. A diferença é que essa centralidade agora é disputada.
A TV ainda tem escala, mas a internet passou a ter velocidade e capacidade de transformar qualquer conteúdo em recorte compartilhável.
Conteúdo que não termina no intervalo.
Por muito tempo, o digital foi tratado pelas emissoras como uma extensão da programação: um lugar para rever trechos, publicar chamadas e empurrar o público de volta para a TV. Esse modelo mudou. Hoje, o conteúdo já nasce pensando no corte, na verticalização, no bastidor, no comentário e na circulação em rede.
O GloboPop, lançado como plataforma gratuita de vídeos curtos e verticais, é um dos exemplos mais claros dessa virada: a Globo tenta ocupar uma linguagem típica de TikTok e Reels, mas dentro de um ambiente próprio, com curadoria editorial e conteúdos de entretenimento, jornalismo, esporte e creators parceiros.
Creators viraram formato.
A presença de talentos digitais na televisão também mudou de patamar. O SBT levou Virginia Fonseca para comandar o Sabadou com Virginia, apresentado pela própria emissora como o primeiro programa de TV da influenciadora.
Na Globo, Felca foi anunciado para um quadro no Fantástico em 2026 sobre saúde emocional e vida digital, com temas como autoestima, relacionamentos, bullying e impactos do universo online. Já Igão e Mítico, do Podpah, aparecem em um movimento ainda em desenvolvimento: segundo informações publicadas, a Globo trabalha em uma série de humor com a dupla, mas o projeto ainda não teve estreia oficialmente confirmada.
Mesmo assim, o movimento é simbólico. Creators deixaram de ser apenas convidados de sofá e passaram a ser considerados linguagem e possibilidade de produto televisivo.
Cada emissora quer seu próprio ecossistema.
Esse reposicionamento não é exclusivo da Globo. O SBT lançou o +SBT como streaming gratuito com conteúdo sob demanda, canais ao vivo e transmissão em tempo real da emissora. A Record reposicionou o PlayPlus como RecordPlus, reforçando o streaming como vitrine para novelas, séries, realities, jornalismo, entretenimento e produções especiais.
A Band, por outro caminho, se aproximou da lógica de dados com a Sala Digital em parceria com o Google, usando tendências de busca para alimentar conteúdos na TV, no rádio e no digital. São movimentos diferentes, mas com a mesma raiz: a televisão está tentando operar como ecossistema, não apenas como canal.
Internet concorrente da programação.
O avanço da CazéTV deixou essa virada ainda mais evidente, especialmente no esporte. A cobertura digital de grandes eventos mostrou que o público aceita assistir transmissões longas no YouTube quando o formato combina linguagem de internet, comunidade, cortes, interação e presença de criadores.
Para a Copa do Mundo de 2026, o ambiente já nasce híbrido: a CazéTV deve exibir todos os 104 jogos, enquanto Globo, SBT e N Sports também preparam estratégias de transmissão e distribuição. O SBT volta à Copa após 28 anos em parceria com a N Sports, com um pacote de 32 partidas, incluindo jogos da Seleção Brasileira.
A TV aberta continua relevante, mas agora disputa atenção com players que aprenderam a transformar transmissão em conversa.
Novo jogo da televisão.
A televisão não está morrendo. Ela está sendo forçada a mudar de forma. O que antes era uma mídia organizada pela grade agora precisa conversar com a lógica do algoritmo, da creator economy, da tela vertical e do consumo sob demanda. GloboPop, +SBT, RecordPlus, Sala Digital da Band, Virginia no SBT, Felca no Fantástico, Podpah em desenvolvimento e a força da CazéTV apontam para a mesma direção: não basta estar na internet.
A televisão precisa pensar como conteúdo feito para circular. O desafio das emissoras agora é transformar escala em conversa, audiência em comunidade e tradição em linguagem atual.








