Como a Lacoste transformou seu jacaré em manifesto ambiental.
Ao substituir seu icônico logo por espécies ameaçadas, a marca criou uma das ações mais simbólicas da moda recente e consolidou um novo padrão de ativismo de marca.
Logo vira posicionamento.
Em 2018, a Lacoste lançou a campanha “Save Our Species” em parceria com a IUCN, organização responsável pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Pela primeira vez desde 1933, o crocodilo criado por René Lacoste saiu do peito das polos. No lugar dele, surgiram animais criticamente ameaçados, como o rinoceronte-de-java, o tigre-de-sumatra, a iguana-de-Anegada, o saola, a tartaruga-de-birmanesa e o lêmure-esportivo-do-norte.
O gesto foi acompanhado por um dado concreto: cada modelo foi produzido em quantidade equivalente ao número estimado de indivíduos restantes na natureza. Foram 1.775 polos no total, representando simbolicamente as 10 espécies da primeira edição. A ação esgotou rapidamente e gerou repercussão global. Em 2022, a marca retomou o conceito ampliando o número de espécies representadas, consolidando a iniciativa como plataforma e não apenas coleção pontual.
Gesto raro no universo da moda.
O crocodilo da Lacoste é um dos logotipos mais reconhecidos do mundo da moda. Ele representa herança, performance esportiva e tradição francesa. Retirá-lo temporariamente significa mexer no principal ativo visual da marca.
Poucas empresas com identidade tão consolidada aceitariam esse risco. Ao abrir mão do símbolo próprio para destacar espécies ameaçadas, a Lacoste deslocou o centro da conversa do produto para a causa. Não se tratava de inserir uma estampa temática. Tratava-se de substituir a própria assinatura.
A campanha como referência em ESG.
A ação passou a ser citada como referência em estratégia ambiental dentro do universo ESG. Não por discurso, mas por execução. A marca conectou design, escassez real e dados científicos validados pela IUCN. Cada peça carregava uma narrativa concreta de biodiversidade.
Enquanto muitas empresas adotam linguagem sustentável sem alterar produto ou estrutura, a Lacoste usou seu item mais clássico para comunicar preservação. A coerência entre símbolo animal e proteção da fauna tornou a campanha particularmente forte em termos de consistência de marca.
Por que ainda importa agora.
A discussão sobre perda de biodiversidade e crise climática ganhou intensidade nos últimos anos. Investidores, consumidores e reguladores pressionam por responsabilidade ambiental mensurável. Nesse cenário, iniciativas que combinam produto e posicionamento ganham novo peso.
A ação da Lacoste permanece relevante porque mostrou que propósito pode estar integrado à identidade central da marca. O jacaré não desapareceu. Ele cedeu espaço temporariamente para lembrar que outras espécies talvez não tenham a mesma chance.






